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Silvana Clares Vieira, Escola de Saúde Pública do Ceara
Genara Leandro da Silva, Escola de Saúde Pública do Ceara
Maria Janaina Oliveira de Sousa, Escola de Saúde Pública do Ceara
Introdução: A população em situação de rua constitui um dos grupos mais vulnerabilizados da sociedade, enfrentando múltiplas privações como a falta de moradia, o rompimento de vínculos familiares e a precariedade no acesso à saúde, o que se agrava em cidades do interior, onde as políticas públicas muitas vezes permanecem apenas no papel (Brasil, 2023). Além disso, estigmas e preconceitos reforçam processos de exclusão, invisibilizando suas histórias e necessidades (Medeiros et al., 2024). A realização de oficinas de pintura e a entrega de kits de higiene buscaram, nesse contexto, favorecer espaços de dignidade, expressão e acolhimento. O objetivo deste relato é descrever a experiência de abordagem dessa população, evidenciando tanto os limites estruturais quanto as potências do encontro entre residentes em saúde e pessoas em situação de rua. Métodos: Relato de experiência realizado no interior do Ceará, entre junho e setembro de 2025, conduzido por residentes multiprofissionais em saúde mental com parceria com o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas). As atividades consistiram em escuta ativa, oficinas de pintura coletiva em espaço aberto, oficinas de produção de material de limpeza e entrega de kits de higiene, acompanhadas de rodas de conversa sobre cuidado e cotidiano. Participaram em torno de 20 pessoas majoritariamente homens, com idades entre 25 e 45 anos, em situação de uso problemático de álcool e outras substâncias, e com vínculos familiares fragilizados ou rompidos. A observação participante e registros reflexivos compuseram a análise da experiência. Resultados/Discussão: As oficinas favoreceram a expressão artística e a construção de vínculos de confiança, revelando momentos de empatia e solidariedade mesmo diante da dureza da vida nas ruas. Observou-se que, apesar da exclusão social e da desatenção dos serviços de saúde, os participantes demonstraram abertura e cuidado com as residentes, ressignificando o espaço como lugar de encontro e reconhecimento mútuo. Contudo, o preconceito da comunidade e a ausência de políticas efetivas de saúde e assistência reforçaram o caráter excludente vivido por esse grupo. A literatura aponta que práticas criativas podem fortalecer autoestima e identidade social (Santos & Ferreira, 2022), mas, sem políticas estruturantes, o impacto tende a ser limitado e pontual (Carneiro & Silva, 2023). Considerações finais: A experiência mostrou que, mesmo em meio à negligência das políticas públicas e aos estigmas persistentes, gestos simples de cuidado, como oficinas e rodas de conversa, podem gerar vínculos significativos e resgatar a dignidade de pessoas em situação de rua. Ressalta-se a urgência de ações intersetoriais que consolidem direitos, ampliem o acesso à saúde e combatam preconceitos. O encontro revelou não apenas a vulnerabilidade, mas também a potência de humanização que emerge do diálogo e da troca de experiências.
